21.12.06

Cesariny

MÁRIO DE CESARINY DE VASCONCELOS
1923-2006

Foto: Manuel Luis Cochofel
Série Pessoas, 2004


O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

(Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele)

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

(O seu porão traz nada
nada leva à partida)

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

(A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto)

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo


O Navio de Espelhos, 1965
in A Cidade Queimada
Ed. Assírio & Alvim, 2000

Voz de Cesatiny: no álbum Os Poetas - Nós e as Palavras com música de Rodrigo Leão, Gabriel Gomes, Margarida Araújo e Francisco Ribeiro.


3 comentários:

-pirata-vermelho- disse...

maria,
quando conheci o Cesariny,
há uma data de anos, numa oficina de emoldurar pinturas, o gajo olhou pra mim com um sorriso de admiração-ou-isso que nunca saberei explicar, estendeu a mão e disse - ah, tu é que és o salvador...!?, enquanto o outro, o que nos estava a apresentar, ia dizendo, em fundo, '...este é o Cesariny!'; nunca me tinha sentido tão misturadamnente envaidecido e surpreendido - mas onde é que aquele gajo tinha ouvido falar de um 'mim' para mim desconhecido!? -
Ganda farsante!
Sempre foi. Mas deixou cá coisas que é coisa que muita gente não faz.

(E a gentinha que se lixe...)

Beijos pra ti, que vais fazendo.

-pirata-vermelho- disse...

(E não digas que aqui não venho; venho. Mas ond'é que está a música que aqui se ouvia?)

MRF disse...

anda por aí, e ora vem ora vai, consoante os humores..., leitor 2! :)