30.5.07

Mack the knife

Ainda a Ute Lemper e as vontades que ela pode dar! Isto tudo sem se ver! Imaginem se pudéssemos ver!

29.5.07

Banda Sonora II

Hoje, de novo, no programa Banda Sonora, do Rádio Clube Português, com o Nuno Infante do Carmo. AQUI. Às 23 horas dou-vos música!

Boubacar "Kar Kar" Traoré & Ali Farka Touré

Diarabi



Diarabi, un cri poussé par le plus amoureux des hommes, mais aussi le plus désespéré...

O álbum

Salif Keita

Madan



Yamore

28.5.07

Banda Sonora

Banda Sonora é um programa da autoria de Nuno Infante do Carmo. Passa às 23h no Rádio Clube Português. A convidada de hoje e amanhã, terça-feira, sou eu. Ao Nuno, agradeço o convite e as horas passadas no melhor estúdio do mundo. Vocês, não se esqueçam de sintonizar o RCP ou de ouvir aqui a emissão !

27.5.07

试听|下载本曲铃声|免费点本歌给朋友|歌词|MP3

Andei à procura de uma faixa precisa do último álbum dos Maroon 5... e finalmente encontrei-a! Vamos ser muitos Back At Your Door!

24.5.07

Às vezes o amor



"As cidades onde marcavam encontros furtivos, o mapa que iam traçando, ponto por ponto, no corpo e na memória, e incluía bares, hotéis, aeroportos, cadeiras do Jardim do Luxemburgo, o início do Tiergarten, o relógio do Bahnhof Zoo, horários, mesas de café, altifalantes, lojas, impressos, chegadas e partidas, filas de trânsito onde táxis avançavam penosamente sob a chuva.
Incluía todas as cidades possíveis, excepto a deles, que se tinham tornado opacas, porque as tinham colocado provisoriamente no parêntesis da vida. Ignoravam-nas no tempo intermédio, e só se sentiam vivos a caminho de outras. (...)

Se o amor acabesse, pensaram saindo do taxi com as malas e partilhando ainda o mesmo guarda-chuva antes de partirem para destinos diferentes, se o amor acabasse, todas as cidades se tornariam ilegíveis."

A Mulher que Prendeu a Chuva, in: Cidades, pp 105-106
Sudoeste Editora, 2007


Aproveito para vos informar das datas das próximas apresentações do último livro de Teolinda Gersão:

FNAC NORTESHOPPING
19 de Maio, Sábado, 21:30

FNAC COLOMBO - LISBOA
29 de Maio, Terça-feira, 18:30

18.5.07

Suite para Dom Roberto

BERNARDO SASSETTI, EM CONCERTO

Dia 18, 6ªf., 21H30, TEATRO DAS FIGURAS (TEATRO MUNICIPAL DE FARO)

BERNARDO SASSETTI, EM CONCERTO QUE IGUALMENTE COMEMORA O 10º ANIVERSÁRIO DO SEU TRIO, ESTREIA EM FARO A SUA ÚLTIMA COMPOSIÇÃO MUSICAL, "SUITE PARA DOM ROBERTO", UMA ENCOMENDA DO CINECLUBE DE FARO.


JUSTIFICAÇÃO DE UMA ENCOMENDA
Como encerramento oficial das comemorações do 50º aniversário do Cineclube de Faro e celebração do 10º aniversário do Trio de Bernardo Sassetti, apresenta-se, em estreia absoluta, a obra encomendada a Bernardo Sassetti "Suite para Dom Roberto", peça musical inspirada no filme "Dom Roberto", de Ernesto de Sousa. Este filme foi produzido em 1962 com fundos vindos da Cooperativa do Espectador, constituída expressamente para esse efeito no seio do movimento cineclubista da época. 44 anos depois lançou o Cineclube de Faro uma subscrição pública no seu universo de associados que permitiu custear a composição desta obra musical.

6.5.07

Ute Lemper is not a vamp

Fotos MRF - Casa da Música - 4 de Maio

Eu vi um espectáculo sublime, executado por uma cantora-bailarina-performer divina, que começou com um murmúrio yiddish e acabou com um assobio jazzístico. Cantou Lili e isso bastar-me-ia. Pelo que tudo o mais foi soberba. Há quem consiga dar mais pormenores.
Eu vi uma bela mulher--- que não trai a idade que tem. Comentando fotos suas ---em capas de cds antigos, dizia, sorrindo, que era uma pena, mas não podia permanecer igual ao que era há vinte anos. O filho, com 18 meses, pela mão, ao colo. E que devíamos comprar o último álbum alive, alive. Falava de "Blood and Feathers: Live at the Cafe Carlyle" que não consegui encontrar à venda. Então ela suspirou: não sou uma superstar! Ute lemper!

E porque este artigo da jornalista Inês Nadais (Publico) reflecte bem a personalidade artística de Lemper e resume lindamente o espectáculo que trouxe a Portugal, transcrevo-o para aqui.

---Ute Lemper a salteadora do cabaré perdido

Passamos meia hora a falar de cabaré com Ute Lemper como se estivéssemos em Berlim, nos anos 20 (as montras de vidro ainda intactas, "yiddish" nas ruas, copos partidos no caminho para o próximo "whisky bar" e variedades à noite, com Friedrich Holländer e Kurt Weill: Hitler era só um holocausto ao fundo do túnel, o mundo estava a uns anos de estar perdido), e meia hora depois Ute Lemper diz, "stop the press", que "o cabaré é uma arte perdida". Passámos meia hora a falar de uma coisa que já não existe - e, no entanto, o cabaré só acaba quando ela acabar. "Isto é o que eu faço melhor. Durante muitos anos perdi tempo a dar passos para o lado, mas no final do dia é mesmo no cabaré que me sinto mais em casa", diz Ute Lemper (atende-nos o telefone em Nova Iorque, onde vive com o marido, o baterista Todd Turkisher, e os três filhos: já tinha acontecido antes, a reserva moral da Alemanha em geral e do cabaré berlinense em particular estar na América, do outro lado do mundo ocidental). Faria sentido regressar, admite (mas isso era se ela fosse pragmática): "Passo a vida na Europa, 70 por cento dos meus concertos são aí". Estamos nesses 70 por cento: hoje (Casa da Música, Porto), amanhã (Teatro das Figuras, Faro) e depois (Centro Cultural de Belém, Lisboa), Ute Lemper faz de Ute Lemper aqui.
É sempre isso que acontece: Ute Lemper a fazer de Ute Lemper (e pode acontecer com Friedrich Holländer e Kurt Weill, com Edith Piaf e Jacques Brel, com Stephen Sondheim e George Gershwin, com Tom Waits e Scott Walker). A diferença é que, em "Angels over Berlin and the World", o espectáculo que traz esta semana a Portugal, há alturas em que ela não está a fazer de Ute Lemper, está a ser Ute Lemper. Compôs um álbum, e esse álbum é mesmo ela.
"As minhas canções são muito menos teatrais e muito mais introvertidas do que as canções do Weill ou da Piaf que me habituei a cantar - são canções mais poéticas em que as palavras falam por si, ao ponto de quase dispensarem a interpretação. Mas nos meus espectáculos continuo a fazer muito esse teatro", explica. O álbum não está pronto para a digressão, apesar de ter sido gravado há ano e meio ("Acabámos as gravações cinco dias antes de o meu bebé nascer, em Novembro de 2005. Durante um ano, esqueci-me que o álbum existia. Em Dezembro de 2006, misturámo-lo, finalmente. Foi óptimo ganhar distância. Mas é pena o álbum não estar pronto para estes concertos. As questões legais estão a demorar uma eternidade... Espero que em Setembro já esteja à venda"). Mas há canções do álbum que estão prontas. "São mesmo minhas, estas canções: são sobre a minha vida, sobre os meus amigos, sobre o meu universo. Mas, além de biográficas, são ligeiramente sociopolíticas: neste álbum eu olho de frente para o mundo. E o mundo mudou imenso: há pessoas diferentes, há deuses diferentes, há guerras diferentes (e há uma superpotência diferente, a mandar sozinha). Acho que fiz um álbum épico para o mundo dos nossos dias", conclui.
Não acha que este mundo seja pior ou melhor do que os anteriores - só acha que é mais indecifrável e, por isso, mais intransponível. "É um mundo muito pouco transparente. Dantes conseguíamos ler nas entrelinhas das coisas, agora não: as guerras por trás desta guerra são difíceis de perceber. Não sabemos exactamente quem puxa os cordelinhos deste teatro de marionetas".

---Fantasmas

No teatro dela, há coisas de vários mundos - deste mundo que ela não consegue processar e dos outros que não sobreviveram ao século XX -, e essas canções épicas que Ute Lemper compôs para os nossos dias coabitam com os fantasmas de Natais passados. "Neste espectáculo faço uma viagem por repertórios de várias épocas diferentes. Há uma homenagem a Jacques Brel, com canções muito pouco conhecidas dele, novas composições minhas que nunca cantei em Portugal, "standards" do cabaré berlinense de Brecht e Weill e um núcleo de canções em yiddish".
Nós tínhamos dito que havia fantasmas, esqueletos no armário da Alemanha do século XX (Ute Lemper nasceu em Münster, em 1963), e há: "Procurei materiais da cultura berlinense do início do século e a maioria dos compositores e dos letristas dessa época era de origem judaica. Quis fazer uma homenagem àqueles que tiveram de abandonar a Alemanha - e àqueles que ficaram para ser assassinados pelos nazis. Como alemã da segunda geração do pós-guerra - e sobretudo como alemã com uma identidade muito ambivalente -, senti obrigação de prestar homenagem a uma cultura que foi tão cruelmente violada", sublinha Lemper. Não teve de aprender a falar "yiddish": "O meu marido é judeu, os meus filhos são metade judeus, e sempre ouvi gente a falar "yiddish", ou pelo menos com sotaque "yiddish", à minha volta. Adoro esse sotaque. É quase como um dialecto do alemão - mas com muito mais paixão do que o alemão".
Há relações de consanguinidade entre os protagonistas dessas canções de judeus da Europa Central e os protagonistas das outras canções que Ute Lemper convoca em "Angels over Berlin and the World" (incluindo os protagonistas da "chanson", outra coisa morta: "Foi uma das coisas mais bonitas do século XX e não sobreviveu até este milénio", lamenta): "Todas estas histórias são sobre anti-heróis, sobreviventes, pessoas que riem por último". Mas também sobre um mundo de que, de certa forma, Lemper desertou: viveu em Münster, Colónia, Viena, Berlim, Paris e Londres, fixou-se em Nova Iorque. "Regressar a Berlim é uma possibilidade que estou sempre a colocar - mas adoro a cidade. Aqui desaparece-se realmente na massa. Pessoas de todos os lados instalam-se aqui, com as suas histórias, e coabitam realmente na mesma rua, no mesmo prédio, na mesma casa. Na Alemanha é tudo tão distintamente alemão. Mesmo Berlim, que é uma cidade à parte, e que é a minha cidade alemã favorita. Escrevi uma música sobre Berlim, está no álbum novo: chama-se "Ghosts of Berlin"".
Não há cidade europeia mais assombrada (eles continuam a contar os seus mortos, no centro da cidade, e essa memória esmaga 20 mil metros quadrados de terra de ninguém entre a Porta de Brandenburgo e a Potsdammer Platz).
O cabaré berlinense, diz Ute Lemper, é uma das baixas desse tempestuoso século XX alemão: "Em Portugal há novos fadistas, no México há novos cantores de ranchera - é bom, a roda continua a girar. Na Alemanha não. Não há muitos continuadores da tradição do cabaré, e não creio que os alemães tenham saudades disso. A Alemanha é muito influenciada pelos EUA, pelo lixo, pelos "reality shows" que estão a educar uma geração inteira, e o cabaré é uma arte perdida. Há cantores, e continuará a haver - mas a fazer carreiras de nicho. A ideologia alemã é toda sobre andar para a frente, andar para a frente, andar para a frente, e o cabaré ficou para trás". Ela imagina-se a fazer cabaré aos 60 anos. "O que faço é intemporal. Olho para o espelho e vejo que não sou a mesma de há 20 anos, mas envelhecer é uma coisa que está muito longe. Tenho 43 anos, sinto-me tão atlética como sempre fui e está tudo bem, são só mais umas rugas". Aqui na terra, para todos os efeitos (com 20, com 60, ou com 43), ela continua a ser a última diva do cabaré alemão.

4.5.07

Senhoras e Senhores, hoje, Ute Lemper, está na Casa da Música


Ute Lemper apresenta um versátil e sofisticado espectáculo, “Angels Over Berlin and The World”, que remete o espectador para o mundo de Brel, Piaf, Weill, Hollaender e Waits.

Finalmente vou poder assistir a um espectáculo da Diva ao vivo! Ela é a Marlene Dietrich dos nossos dias! E eu pareço uma miúda...

No [4thefun]

Uma noite plena com Maria João, Laginha, Zeca Afonso e lágrimas

3.5.07

Nabucco

Nabucco de Giuseppe Verdi
pela Ópera Estatal da Bulgária
dirigida por Nayden Todorov

Depois da Figueira da Foz e de Sta. Maria da Feira (Europarque),


Às margens de Eufrates, os hebreus descansam do trabalho forçado. Os seus pensamentos sobem em asas douradas para a sua terra natal perdida. Cantam Va Pensiero...


---aqui, pelo Orfeón Donostiarra


Ao vivo, envolvido pela iluminação e pelo guarda-roupa de Alexender Tekeliev, o coro da Ópera E. da Bulgária provocou uma emoção muito forte. A acção decorre em Jerusalém e Babilónia no ano 560 A.C.. Ou hoje, em Israel e Palestina. onde povos continuam a chorar a terra perdida.


Va, pensiero, sull'ale dorate; Vá, pensamento, sobre as asas douradas
va, ti posa sui clivi, sui colli,
vá, e pousa sobre as encostas e as colinas
ove olezzano tepide e molli
onde os ares são tépidos e macios
l'aure dolci del suolo natal! c
om a doce fragrância do solo natal!
Del Giordano le rive saluta, Saúda as margens do Jordão
di Sionne le torri atterrate...
e as torres abatidas do Sião.
Oh mia patria sì bella e perduta!
Oh, minha pátria tão bela e perdida!
Oh membranza sì cara e fatal! Oh, minha pátria tão bela e perdida!
Arpa d'or dei fatidici vati,
Harpa dourada de desígnios fatídicos,
perché muta dal salice pendi? p
orque choras a ausência da terra querida?
Le memorie nel petto raccendi,
Reacende a memória no nosso peito,
ci favella del tempo che fu! f
ala-nos do tempo que passou!
O simile di Sòlima ai fati
Lembra-nos o destino de Jerusalém,
traggi un suono di crudo lamento,
traz-nos um ar de lamentação triste,
o t'ispiri il Signore un concento ou que o senhor te inspire harmonias
che ne infonda al patire virtù.
que nos infundam a força para suportar o sofrimento.

30.4.07

Somos Livres

Ermelinda Duarte



Ouvia-a aqui e roubei-a à má fila. Com oito anos sabia esta canção de cor. e cantei-a (quem não cantou?) durante anos. de tal maneira que no exame final da 4ª classe fiz uma composição sobre uma gaivota. Lembro-me vagamente do conteúdo, sei que o protagonista era uma gaivota-pomba da paz que voava voava e transformava os lugares por onde passava. A composição foi considerada a melhor do distrito no ano de 1975/76. O 25 de Abril tinha sido ontem e, conscientemente ou não, eu apoiava a revolução. ou não fossem sempre as escolas instrumentos políticos do poder vigente. antes tinham servido (ferozmente) a propaganda salazarista.

Éramos livres, ou queríamos ser livres, mas demorámos algum tempo a sê-lo. A liberdade exigiu aprendizagem. Em Outubro de 1974, no início do novo ano lectivo, as reformas estavam ali, visíveis naquela escola. Na sala, as paredes estavam despidas de Salazar e Caetano. Mantinha-se o crucifixo, que ninguém muda a mentalidade de professores com dezenas de anos de carreira de um dia para o outro. O 1° ano tinha pela primeira vez classes mistas, para gáudio dos mais velhos, como eu, que com as colegas de turma inventávamos casamentos entre meninos e meninas de 6 anos. Ainda me lembro do meu casal preferido, a Clarinha e o Nuno (pobres vítimas da Revolução!). Deixou de haver um muro a separar o edifício dos rapazes e o das raparigas e isso era estranhissímo. Nos anos anteriores era expressamente proibido passar o muro para o outro lado, o castigo era grande para quem o fizesse e, de repente, não havia muro, e éramos convidados a usar todo o espaço do recreio. Nunca consegui atravessar o muro que já não existia. Lembro-me perfeitamente de sentir que continuava a infringir qualquer lei. Quando os rapazes passaram a ocupar o "nosso" espaço, não gostei. As brincadeiras deles eram mais violentas. Um dia, uma bola mal lançada atingiu-me no estômago, fiquei sem conseguir respirar por uns momentos; quando recuperei fui ter com o miúdo e ordenei furiosa: "volta para o teu recreio!".

Quando penso na votação do concurso Grandes Portugueses, ou nas manifestações pró-fascistas e xenófobas dos últimos tempos, penso sempre que há gente que ainda não aprendeu o novo espaço de liberdade. Quando se zangam, continuam a gritar: "volta para o teu recreio!"

Não sei é se isso acontece por terem passado 33 anos, ou se acontece por terem passado 33 anos! Viver em liberdade exige aprendizagem, mas também memória.

25.4.07

1974

E então olhei à minha volta
Vi tanta esperança andar à solta
José Mário Branco




O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raíz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Ruy Belo

24.4.07

Bee Gees


How Deep is Your Love, 1977

A sola do sapato roto e a mãe. Foram eles os culpados. Ou um maldito orgulho.

Ela escreveu na primeira página do caderno: Pergunta 1 - Como te chamas, Pergunta 2 - Que idade tens, Pergunta 3 - Qual a tua disciplina favorita, Pergunta 4 - O que queres ser quando cresceres, e por aí adiante, com uma dose igual de inocência e de malícia, ou não fosse o único objectivo do inquérito vê-lo responder também às últimas perguntas.
- Pergunta 9 - Gostas de alguém, Pergunta 10 - Descreve-o/a.

A regra era responder primeiro e depois fazer circular o caderno entre os amigos. Todos saberiam que se chamava Ângela, tinha 13 anos, mesmo que faltassem ainda alguns meses, gostava de geografia, queria ser analista, mas não dizia de quê, enfim, agradava-lhe a ideia de trabalhar num laboratório, gostava dos Bee Gees, mais especificamente do Maurice Gibb mas isso ali não dava jeito nenhum dizer porque afinal ele ia ler tudo, e gostava dele, do Alberto do 10° ano que, por agora, para não passar por tontinha, pois uma coisa é provocação e outra é humilhação, ai dele, era apenas simpático. E de repente, antes de ter tempo de recuar na decisão, a Manuela tirou-lhe o caderno e foi a correr entregá-lo ao Ramiro, que foi a correr entregá-lo ao Alberto, e lá estavam os dois, Ângela e Alberto, em pontos separados do polivalente, ela sentada ao pé do bar a fazer de conta que está na maior e ele ao pé do palco, rodeado de amigos, a ler o inquérito.
O toque para as aulas, uma troca de olhares, ela cheia de certezas, ele também gostava dela; ela sabia, por causa daquela maneira que ele tinha de lhe dizer coisas sem usar palavras, e no fim das aulas, o encontro, todos em manada a descer a rua da escola, ele a pegar a mão dela, ela a querer andar mas o corpo todo parado, ele a dizer - Lê!, ela leu, 9 - Ângela, 10 - Muito bonita, e pronto, namoravam, já sabiam os dois, e todos os amigos.

Tinham educação física nos mesmos dias e à mesma hora e combinaram faltar a essa aula para namorar, dizendo namorar a rir mas sem enganar ninguém, muito menos o outro, que ele tinha mais certezas sobre aquele amor dela e ela mais certezas sobre aquele amor dele, do que cada um deles sozinho, sobre o que sentia. Sentavam-se atrás do Pavilhão 2 e conversavam. A Manuela, que entretanto também começara a namorar com o Ramiro, contara-lhe em pormenor o primeiro beijo que tinha dado, na boca, e todos os dias ela esperava a vez dela, a vez dele. À noite, deitada na cama, e a bem dizer, demanhã ao acordar, e até nas aulas, quando se distraía, imaginava todas as formas possíveis do acontecimento. Sem querer esbarravam de frente e não resistiam, ele avisava-a por carta da premência de se beijarem, um dos dois adoecia gravemente e o outro dedicava-se sem limites à tarefa do consolo. Mas quando estavam sozinhos e ele começava a olhar muito sério para os lábios dela, ela virava o rosto, mais encarnada que sei lá o quê, e puxava outro assunto. E os dias foram passando, com as fugas ao sábado para o ir ver jogar andebol, os ensaios do ballet em que ele aparecia e lhe levava o saco até casa, as mãos dadas nos momentos mais íntimos nos tais dias de educação física, muitos mimos e olhares doces, e o desejo de beijos na boca.

Até que. há sempre um até que. até que o professor de ginástica comentou com a tia dela as faltas às aulas e o namorado, a tia comentou com a mãe, e um dia, atrás do Pavilhão 2, apareceu a mãe. Se lhe bateu logo ali ou só em casa, se foi buscar a chibata e a marcou ou se isso foi noutra vez qualquer, são pormenores sem importância. No dia seguinte, ele esperava-a, e ela não queria vê-lo.

Estavam sentados na relva, ela agarrada aos joelhos, o Alberto a espreitar-lhe o rosto escondido pelos cabelos. Ele nunca ia directo ao assunto mas nesse dia quis saber, logo, o que tinha acontecido, qual tinha sido o castigo, se lhe tinham feito mal. Ela choro não choro, mas depois virou-se e disse-lhe que estava tudo bem. Deitou-se e disse-lhe, irritada - nunca me beijaste! Cruzou uma perna sobre a outra e ia distrai-lo com mais qualquer coisa quando o viu olhar para o sapato. Um dos pares dos seus sapatos bordeaux, de camurça, com dois centímetros de tacão, e uma fivela pequenina de lado, tão lindos que os usava todos os dias, tão imprescindíveis que nem queria levá-los ao sapateiro, tinha um buraco na sola.
...


Às segundas, n' O Afinador de Sinos, às terças aqui, os Princípios continuam. O Livro vai-se compondo. Participem!

21.4.07

Orfeu nos Infernos de Jacques Offenbach

Para quem ainda não tiver programa para a tarde de domingo, dia 22 (17h00), e se viver em Aveiro ou a uns escassos quilómetros, deixo uma sugestão: assista à estreia da versão em português da obra Orphée aux enfers, de Offenbach, pela Classe de Canto da Universidade de Aveiro e Orquestra Filarmonia das Beiras. Raquel Camarinha e Alberto Sousa traduziram e a encenação de Carla Lopes é divertidíssima! A direcção musical é de António Vassalo Lourenço. Acabo de chegar do Teatro Aveirense e ainda estou com o Can-Can no ouvido!

No programa: No ano em que se comemoram os 400 qnos da estreia da ópera de Claudio Monteverdi "La favola d'Orfeu", a OFB em co-produção com a UA e o TA, apresentam esta ópera burlesca, numa estreia da versão em português. "Orfeu nos Infernos" é uma sátira ao mito de Orfeu, com música de Jacques Offenbach (1819-1880), na qual surge o tema que tornou o compositor e esta ópera dignos de notoriedade internacional: o Can-Can. (...)

Eu gostei particularmente de ouvir (e ver) a Eurídice/Raquel Camarinha, o Cupido/Susana Ferreira e John Styx/Pedro Ferreira, mas muitos outros novos valores se revelam neste espectáculo.

Não é má ideia dar uma vista de olhos prévia a algumas gravações do mesma obra levada a cena pela Opéra Nacional de Lyon. Talvez aguce o apetite e, sendo evidente a diferença de meios, não me parece que a encenação que vi hoje fuja muito a este modelo. Alors là, vraiment, goutz moi ça, Offenbach c'est super!

Offenbach's opera "Orphée aux enfers"
Opéra national de Lyon 1997

Do III Acto - Natalie Dessay canta a ária "Ah! Quelle Triste Destinée"



(Ainda III Acto) Natalie Dessay and Laurent Naouri interpretam "Il m'a Semble sur mon Epaule (O dueto da Mosca)



IV Acto - Festejo do último galope infernal

20.4.07

17.4.07

Quelque chose en nous de Tennessee

... é a minha canção preferida do Johnny Hallyday. de preferência a solo. qualquer coisa cá dentro mexe...




A vous autres, hommes faibles et merveilleux
Qui mettez tant de grâce a vous retirer du jeu
Il faut qu'une main posée sur votre épaule
Vous pousse vers la vie, cette main tendre et légère

On a tous -Quelque chose en nous de Tennessee
Cette volonté de prolonger la nuit
Ce désir fou de vivre une autre vie
Ce rêve en nous avec ses mots à lui

Quelque chose de Tennessee
Cette force qui nous pousse vers l'infini
Y a peu d'amour avec tell'ment d'envie
Si peu d'amour avec tell'ment de bruit
Quelque chose en nous de Tennessee

Ainsi vivait Tennessee
Le cœur en fièvre et le corps démoli
Avec cette formidable envie de vie
Ce rêve en nous c'était son cri à lui

Quelque chose de Tennessee
Comme une étoile qui s'éteint dans la nuit
A l'heure où d'autres s'aiment à la folie
Sans un éclat de voix et sans un bruit
Sans un seul amour, sans un seul ami

Ainsi disparut Tennessee
A certaines heures de la nuit
Quand le cœur de la ville s'est endormi
Il flotte un sentiment comme une envie
Ce rêve en nous, avec ses mots à lui
Quelque chose de Tennessee
Oh oui Tennessee
Y a quelque chose en nous de Tennessee

12.4.07

Hoje, às 23h, no Mercado Negro

Chriss Sutherland, fundador dos Cerberus Shoal, banda indie de culto nos Estados Unidos, traz o seu novo projecto a solo em formato acústico.